TÉCNICA VOCAL
     

"Cantora, arranjadora, instrumentista, preparadora vocal, pedagoga, Gloria
Calvente joga nas onze, e bem: une sólido conhecimento técnico, experiência
 musical, sensibilidade, inteligência, energia infindável. Tê-la como
 companheira de trabalho é mais do que estar em boas mãos: é ter o privilégio
 de tirar uma casquinha de seu talento, entusiasmo e de seu amor pela
 colaboração criativa."
 Felipe Abreu, preparador vocal (RJ)

 

Costumo dizer a meus alunos que a arte do canto, que confere à voz humana status de instrumento musical, guarda desafios àqueles que buscam seus caminhos. O instrumento escolhido não é um objeto; não é possível vê-lo nem tocá-lo, contar com estes sentidos para a compreensão de seu “manuseio”, de sua mecânica de funcionamento. Também não é possível buscar referências em outros “instrumentos/vozes”, já que a voz é a outra impressão digital de cada ser humano, e cada uma das vozes deste Planeta é única. Nosso “instrumento/voz” é constituído apenas de material orgânico, vivo, dinâmico, instável, sujeito á misteriosas regras de “funcionamento e manutenção”, sempre no centro das questões subjetivas. Está conosco desde que nos reconhecemos como indivíduos, mas isso não significa que nós o conheçamos muito bem... pelo contrário, a maioria dos cantores que inicia seu estudo acaba surpreendendo-se, em algum nível, com as descobertas efetivadas nesse percurso.


Entretanto, na condição de integrante da listagem de instrumentos musicais disponíveis, o canto é objeto de estudo e de prática profissional há muitos séculos. E como todos os outros integrantes dessa lista, assumiu perante a história das músicas humanas responsabilidades de performance artística, sempre renovadas e cada vez mais exigentes e rigorosas, na diversidade da Arte e da cultura do entretenimento neste século XXI. Portanto, como qualquer outro instrumento musical, o “instrumento/voz” carece de domínio técnico para que seus instrumentistas possam, como quaisquer outros músicos, garantir o máximo de rendimento – beleza, personalidade, precisão, livre expressão da musicalidade do instrumentista - e profissionalismo em suas performances. Ora, quando articulamos essas demandas à análise das condições específicas de nosso “instrumento/voz”, descritas no parágrafo anterior, começa a ficar claro o nível de complexidade que pode envolver o estudo do canto para muitos (mesmo para aqueles dentre nós que parecem estar naturalmente “prontos” para a tarefa).

Como professora de técnica vocal, percebo que minha principal estratégia tem sido, cada vez mais, o de guiar meus alunos através das múltiplas relações entre as sonoridades da voz e o corpo, tentar despertar-lhes a consciência sobre a influência de minúsculas ações/tensões corporais simultâneas e correlatas à fonação, e que são as responsáveis por aquelas sonoridades, desejáveis ou não. A observação consciente das relações entre tônus muscular, postura, respiração e sonoridade são decisivas para o desenvolvimento de um novo olhar sobre a ação de cantar, e a conseqüente aquisição de um novo patamar de rendimento vocal, desejável para cantores de todas as áreas de atuação – definição de uma timbragem homogênea, maior densidade e volume vocal, ampliação das tessituras, melhores resultados em relação à afinação, minimização do natural desgaste da utilização profissional continuada da voz .

Ao longo dos 18 anos que venho atuando junto a cantores solistas, grupos vocais, grupos corais, e mais recentemente, junto à atores (na preparação vocal para teatro musical) percebo que esta direção favorece a uma gradativa autonomia do aluno em relação a seu desenvolvimento, e esse é um dado muito importante em um campo de estudo que requer do professor e do aluno capacidade de abstração e concentração em ações de extrema sutileza. Quando partilham a construção de um entendimento intelectual e sensorial do processo, quando estabelecem objetivos e trocam impressões sobre cada passo, em breve todos os momentos de prática vocal do aluno fora de seu momento de aula poderão tornar-se, cada vez mais, extensões desta. Esse processo ainda é importante porque viabiliza o estabelecimento de um código verbal entre professor e aluno, que dão ao professor opções de trabalho fora do terreno do exemplo vocal e do risco da imitação. Assim, o aluno tem oportunidade de, antes de mais nada, estar preservado de influências e ilusões auditivas e encontrar seu padrão vocal pessoal, e desenvolvê-lo a partir desse encontro.

A todos os resultados positivos anteriormente mencionados acrescenta-se ainda que é gratificante perceber a marca profunda do encontro de cada um com sua própria voz, com a força que emana de seu principal meio de expressão. Independente do interesse de cada pessoa em busca de sua voz, de sua sonoridade pessoal, independente até do nível de experiência pregressa com o canto, a conscientização dessas relações entre o corpo e o som é sempre uma experiência reveladora, que leva cada cantor para mais próximo de si mesmo e da Música que almeja realizar.

Minha vida profissional desde sempre esteve dedicada à música vocal, a partir de todas as possibilidades que vislumbrei a cada momento: o canto, a técnica vocal, a interpretação, o arranjo, a regência, a direção musical, a música popular, o jazz, a musical coral, a música das tradições brasileiras, a educação. Cada um desses diferentes caminhos nutre todos os outros, e todos juntos deságuam em minha prática como professora, minhas crenças, meu enorme prazer de trabalhar, de aprender [cada vez mais] e de dividir aquilo que aprendo com meus alunos. O trabalho com a música vocal é o toque requintado desse enorme privilégio que é trabalhar com a Música.

Glória Calvente



   

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